‘Corre no quarto e tira sua filha do computador’: adolescente é salva de crime virtual pelo Noad
Ação do Núcleo de Observação e Análise Digital já resgatou 336 vítimas de crimes sexuais praticados por predadores da internet em São Paulo
Era madrugada quando o telefone da casa de uma adolescente de 15 anos tocou com um alerta urgente. “Corre no quarto e tira sua filha do computador, rápido.” A orientação partiu da delegada Lisandréa Salvariego, coordenadora do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), da Polícia Civil de São Paulo.
A jovem estava prestes a se mutilar durante uma transmissão ao vivo em uma rede social, ambiente conhecido como “panelinha”, que pode reunir até mil espectadores acompanhando atos de violência em tempo real. Inicialmente, a mãe acreditou que se tratava de um engano, já que tinha certeza de que a filha dormia. No entanto, a delegada insistiu: a adolescente estava acordada e o risco era iminente.
Os investigadores do Noad acompanhavam a situação em tempo real quando a mãe entrou no quarto e surpreendeu a filha. Segundos depois, a transmissão foi interrompida e o servidor caiu. Para a equipe, o silêncio representou alívio: mais uma vida havia sido salva.
O caso ilustra o trabalho realizado 24 horas por dia pelo Noad, núcleo especializado no combate a crimes virtuais contra crianças e adolescentes, como estupro, automutilação e instigação ao suicídio. Criado há pouco mais de um ano, o núcleo já resgatou 336 vítimas dos chamados “predadores digitais”.
Hoje com 16 anos, a adolescente foi uma das primeiras vítimas salvas no âmbito da Operação Nix, a primeira deflagrada pelo núcleo. Em mensagem enviada à delegada, a jovem relatou a superação do trauma e o desejo de ajudar outras meninas. “Você se tornou uma mãe para mim. O que você faz é lindo. Sou grata por sempre ter um ombro onde eu possa apoiar”, escreveu.
Com 18 anos de carreira, Lisandréa define o Noad como o maior desafio profissional que já enfrentou. Segundo ela, a maior parte dos crimes acontece durante a madrugada, exigindo vigilância constante. “Quando você salva a vida de uma criança, salva também a de uma família inteira. A polícia precisa ser vista como um lugar de acolhimento”, afirmou.
Crimes digitais e aliciamento
Os estudos que deram origem ao Noad começaram após ataques a escolas em São Paulo, quando investigações revelaram que os crimes eram planejados e celebrados em plataformas digitais. A partir disso, a Polícia Civil identificou um ambiente virtual sem controle, onde diversos crimes contra a dignidade sexual eram praticados.
De acordo com a delegada, cerca de 90% das vítimas são meninas entre 7 e 16 anos, que conhecem os agressores em jogos online. Após meses de conversa, a relação migra para aplicativos de mensagens. A partir do envio do primeiro conteúdo íntimo, começam as chantagens e ameaças de divulgação.
“O abusador é paciente e domina técnicas de manipulação. Não há casos em que o contato tenha durado menos de oito meses”, explicou Lisandréa.
Os chamados “predadores digitais” atuam de forma organizada, comercializando conteúdos de pornografia infantil. Atualmente, 749 alvos são monitorados, com 21 adultos presos e 49 adolescentes apreendidos por envolvimento nos crimes.
O trabalho do Noad se tornou referência nacional e passou a integrar a grade curricular da Academia da Polícia Civil (Acadepol), além de palestras em escolas e treinamentos para policiais de outros estados.
Alerta aos pais
Para a delegada, o enfrentamento do problema exige atuação conjunta entre poder público, famílias e plataformas digitais. “A internet é o pior lugar do mundo para deixar uma criança sem acompanhamento. O crime mudou e o criminoso não precisa sair de casa”, alertou.
Ela reforça a importância do registro do boletim de ocorrência. “Não existe agressor com apenas uma vítima. Registrar é fundamental para impedir novos crimes.”
Serviço
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Noad: nucleo.noad@sp.gov.br
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Delegacia Eletrônica: delegaciaeletronica.policiacivil.sp.gov.br
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Disque-denúncia: 181
Fonte: SSP/SP
Foto: Reprodução / SSP/SP
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